Fotógrafos de Frida Kahlo: Edward Weston

por Sergio Antonio Ulber em 17 de agosto de 2012

Edward Weston (1886 – 1958) é considerado um dos pioneiros da fotografia moderna e um dos fotógrafos mais reconhecidos da América. Já foi citado em alguns posts desta série, o que prova de seu envolvimento social e profissional no campo da fotografia e da arte. Estava sempre ligado aos movimentos artísticos contemporâneos, especialmente os que aconteciam em Los Angeles, nos Estados Unidos, e na Cidade do México, capital mexicana. Morou no México durante alguns anos de sua vida, foi onde conheceu e retratou Frida Kahlo, Diego Rivera e outros artistas, escritores e intelectuais americanos. Suas principais influências foram Alfred Stieglitz, Imogen Cunningham, Pablo Picasso, Constantin Brancusi, Muralistas mexicanos e artistas envolvidos com o Dadaísmo e com o Surrealismo. Weston criou imagens fortes e icônicas, explorou diversas temáticas, variava suas técnicas,  foi membro do famoso Grupo f/64 e, além de fotografar, estudou, pensou e escreveu sobre fotografia.

Edward Weston. Foto: Tina Modotti. 

Iniciou sua carreira sob influência do Pictorialismo, estilo predominantes entre os fotógrafos populares da época, que produziam retratos fotográficos parecidos com pinturas. Muito semelhante ao padrão comercial predominante até hoje, os retratos tinham que ser bonitos a qualquer custo, sem a preocupação de passar uma imagem ou mensagem próxima do real.

Weston começou a fazer fotografias com 16 anos de idade, assim que ganhou uma câmera de seu pai, uma Bull’s Eye, e logo mostrou seus primeiros trabalhos ao Instituto de Arte de Chicago. Ele passou a maior parte de sua infância em Chicago, que ficava perto do município em que nasceu, Highland Park, em Illinois, EUA.

Em 1906, com 20 anos, decidiu se mudar para o oeste e trabalhar em uma companhia férrea. Pouco tempo depois retornou a Chicago para estudar na Universidade de Fotografia de Illinois. Concluiu o curso de 12 meses em apenas meio ano, se mudou para a Califórnia e, em 1909, se casou com Flora Chandler. Tiveram quatro filhos. Abriu um estúdio em Glendale, onde produzia retratos e escrevia sobre fotografia.

No sul da Califórnia conheceu alguns dos fotógrafos que exerceram muita influência sobre ele, como Margrethe Mather, que mais tarde seria considerada por Weston a primeira mulher mais importante de sua vida. Mather foi também sua assistente e modelo, com quem produziu muitas fotografias. Lá conheceu também Imogen Cunningham, fotógrafa que elogiava muito seu trabalho, dava apoio moral e o orientava na busca de novas influências fotográficas. Ela chegou a fazer uma fotografia de Weston com Mather numa atmosfera romântica, publicada logo no início desta série.

Em 1922, Weston decidiu viajar para Nova York porque estava na expectativa de se tornar um membro da comunidade artística local e queria conhecer outros fotógrafos, inclusive o tão aclamado Alfred Stieglitz, uma das principais influências de Weston e também dos Estados Unidos. Stieglitz era responsável por uma revista chamada Camera Works e ajudava muitos fotógrafos cujo trabalho lhe agradava, como, por exemplo, o célebre Ansel Adams, que veio ao mundo quando Stieglitz já tinha 38 anos de idade. Weston encontrou Stieglitz duas vezes e em nenhum momento ele falou que gostava de seu trabalho, mas teve a paciência de apontar detalhes que lhe agradaram e outros que desgostou.

Weston tinha um negócio em crescimento que lhe dava certa notoriedade, a produção e venda de retratos, que continuava exercendo em Nova York. Mas isto, para ele não, era o suficiente. Abriu mão do estúdio e deixou sua família para viajar novamente, desta vez para um país estrangeiro, onde queria, mais uma vez, construir uma vida nova. Apesar da viagem, manteve seu casamento com Flora Chandler.

Tina Modotti, 1924. / Nude, 1923. Modelo: Tina Modotti. Fotos: Edward Weston. 

Foi para a Cidade do México acompanhado da italiana Tina Modotti, no ano de 1923. Modotti foi sua assistente e amante, iniciaram a relação ainda nos Estados Unidos, em Los Angeles. Ambos pertenciam a comunidade artística do sul da Califórnia. Weston inaugurou um novo estúdio no México, onde criou importantes estudos e fotografias de corpos nus que são famosas até hoje. O casal permaneceu no país por três anos, onde, naquela época, muitos artistas e escritores se encontravam.

Ambos experimentaram uma vida cultural completamente diferente e fortificaram sua relação. Se completavam. Enquanto ele ensinava fotografia para ela, ela ajudava a tocar o negócio e organizar a agenda. Como Modotti sabia falar espanhol, conseguia comunicar-se com facilidade. Em pouco tempo ela também se tornou uma fotógrafa reconhecida por seu próprio trabalho.

Weston e Modotti conheceram muitos artistas famosos durante sua estadia no México, entre eles Frida Kahlo e Diego Rivera. Modotti fez muitas fotografias dos murais de Rivera e Weston criou um dos retratos mais famosos de sua carreira, registrando a expressão intensa do pintor Jose Clemente Orozco.

Jose Clemente Orozco. Foto: Edward Weston. 

Foi ainda no México que Weston começou a afinar seus trabalhos sobre straight photography, iniciado antes de sua viagem à Nova York. Fez fotos de pessoas, objetos e edifícios. Suas fotografias representavam a verdadeira natureza dos objetos fotografados. Certa vez, escreveu que a câmera deve ser utilizada para processar a substância e a quinta-essência da coisa (fotografada) em si, seja do aço polido ou a carne palpitante. Também fez muitas fotografias da arte popular, em uma época em que os artistas estavam reconsiderando o valor deste tipo de arte, percebendo que as diversas formas de artes tradicionais são tão importantes quanto as obras normalmente apresentadas por galerias e museus.

A experiência adquirida por Weston no México mudou completamente seu jeito de pensar fotografia, retornou à Califórnia em 1926, desta vez para ficar, e lá continuou seu trabalho. Pouco tempo depois, Modotti, que era ativista política, viajou para a Europa com o objetivo de fotografar a ascensão do fascismo e faleceu no ano de 1942, na Cidade do México, supostamente de ataque cardíaco, mas há controvérsias que tornam sua morte um mistério.

Após seu retorno, Weston começou a produzir sem parar. Foi depois dessa aventura que criou as famosas e icônicas fotografias da concha, do repolho e do pimentão, que se mostram impressionantes esculturas em registro fotográfico. A ideia que ele apresenta com estes trabalhos é que simples objetos cotidianos são, na verdade, formas belas, basta educar o olhar. Costumava fotografar pedras, vegetais e corpos nus a fim de revelar e celebrar a beleza das formas.

Com sua nova esposa, Charis Wilson, foi viver na cidade litorânea de Carmel, na Califórnia. Weston passou muito tempo em um lugar chamado Point Lobos, ao sul do município, onde procurava formações incomuns na natureza para fotografar, como rochas ou árvores estranhas, e assim criou mais uma série de fotografias que marcaram sua carreira. Sua nova esposa passou a ser também sua nova modelo para os estudos imagéticos sobre o corpo humano.

Nude, 1936. Modelo: Charis Wilson. Foto: Edward Weston. 

Em 1937, recebeu a maior honra de sua vida ao ser o primeiro fotógrafo reconhecido pela sociedade Guggenheim, que concede Prêmios aos que demonstram uma capacidade excepcional para as artes. Esta conquista de Weston caracterizou os fotógrafos como “artistas sérios”.

Continuou a desenvolver seus trabalhos durante a década de 40, no entendo nunca ganhou muito dinheiro. Viveu em uma pequena casa construída pelos seus filhos, em Carmel. Charis Wilson o deixou em 1945. Três anos depois foi obrigado a largar o trabalho devido ao mal de Parkinson, diagnosticado em 1946, que estava avançando impaciente e impiedosamente. A doença tirou dele a capacidade de fotografar e de revelar seus negativos. Ficou sob os cuidados dos filhos, que também ficaram responsáveis pelos seus trabalhos, e faleceu no primeiro dia do ano de 1958. Suas cinzas foram jogadas no Oceano Pacífico, em Point Lobos, local eternizado em suas fotografias e primeira estadia do seu descanso eterno.

Breve documentário sobre Edward Weston

Frida Kahlo, 1930. Foto: Edward Weston. 

Cabbage Leaf, 1931. Foto: Edward Weston. 

Pepper no. 30, 1930. Foto: Edward Weston. 

Shell, 1927. Foto: Edward Weston. 

Excusado, 1925. Foto: Edward Weston.

Cypress, Point Lobos, 1944. Foto: Edward Weston.

Entrevista com Charis Wilson, aos 90 anos, esposa e modelo de Edward Weston.

Fonte 1 / 2 / 3

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MAIS: 

Apresentação da série

Fotógrafos de Frida Kahlo: Imogen Cunningham

Fotógrafos de Frida Kahlo: Bernard Silberstein

Fotógrafos de Frida Kahlo: Lucienne Bloch

Fotógrafos de Frida Kahlo: Lola Alvarez Bravo

Fotógrafos de Frida Kahlo: Gisèle Freund

Fotógrafos de Frida Kahlo: Nickolas Muray 

Fotógrafos de Frida Kahlo: Manuel Álvarez Bravo

Fotógrafos de Frida Kahlo: Guillermo Kahlo

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O livro Frida Kahlo: Suas Fotos (Frida Kahlo: Sus Fotos), lançado em 2010, no Brasil, pela Cosac Naify, traz parte de um acervo inédito que mostra Frida quando menina, seu estúdio, uma série de autorretratos de seu pai, o encontro com Rivera, seu círculo cosmopolita de amigos e a intimidade com diversos personagens. Utilizando como base este livro, criamos a série “Fotógrafos de Frida Kahlo”.

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Sergio Antonio Ulber

Integra o conselho editorial da Foto Grafia, é responsável pelo blog e pela redação da revista e sócio da LAPIS Comunicação e Cultura. Formado em Design Gráfico pela Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI), atualmente é aluno do curso de Pós-Graduação em Fotografia na mesma instituição.

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