Fotógrafos de Frida Kahlo: Guillermo Kahlo

por Sergio Antonio Ulber em 31 de agosto de 2012

Hoje, completando 10 postagens semanais, encerramos a série Fotógrafos de Frida Kahlo, apresentando uma das maiores influências da artista e uma das pessoas que mais a fotografou: seu pai, Guillermo Kahlo. Conforme mencionado no post de abertura da série, além de apresentá-la à pintura e à fotografia, Guillermo Kahlo também chamou a atenção de Frida para outras áreas, como a natureza e arqueologia mexicanas e a arte, filosofia e literatura alemãs, tornando-se uma das pessoas mais influentes de sua vida, ao lado de Diego Rivera.

Carl Wilhelm Kahlo (1872-1941) nasceu na Alemanha, filho do pintor e joalheiro húngaro Jakob Heinrich Kahlo e sua esposa, a judia alemã Henriett E. kaufmann. Se mudou para o México em 1890, com 18 anos de idade, supostamente a trabalho, e logo que chegou mudou seu nome para Guillermo, que em espanhol equivale ao germânico Wilhelm — curiosamente, no final dos anos 30, com a ascenção do Nazismo na Alemanhã, Frida Kahlo fez o inverso e passou a soletrar seu nome com a letra E no meio, Frieda, fazendo uma alusão a palavra Frieden, que, em alemão, significa paz. Qualquer que seja o motivo da mudança, Guillermo nunca mais retornaria a Alemanha, nem mesmo para revindicar sua herança paterna. Conquistou a cidadania mexicana em 21 de novembro de 1894, professando sentimentos de afeto e adesão ao país, com direito a carta de naturalização assinada pessoalmente pelo presidente Porfirio Díaz.

Guillermo Kahlo. Autorretrato. 

Se casou com Matilde Calderon y Gonzalez, mãe de Frida, logo após a morte de sua primeira esposa, que aconteceu durante o parto de sua terceira filha. Coincidentemente, a mãe de Guillermo também morreu em trabalho de parto, quando ele tinha apenas sete anos de idade, dando a luz ao quarto filho. Apesar do casamento infeliz, como define a biografia publicada no site da Fundação Frida Kahlo, Guillermo e Matilde tiveram quatro filhas, sendo Frida a terceira, batizada de Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderon.

Apesar de estar rodeada por quatro mulheres, Frida passava a maior parte de seu tempo perto de Guillermo, e ele a amava tanto que chegava a causar inveja nas irmãs, conforme escreveu certa vez em uma carta destinada à ela.

Diego Rivera comentou que a herança alemã do pai dela, o construtor-destruidor analítico e cético desiludido, predominava, apagando a influência espanhola-índia da mãe. Ainda assim, como explica Masayo Nonaka no livro Frida Kahlo: Suas Fotos (Cosac Naify, 2010), principal fonte deste texto, a herança materna florescia ao lado da herança paterna, e viria a ser um recurso de imagens extremamente rico no trabalho de Frida. Também não podemos ignorar que os trajes dela remetiam à herança cultural mexicana indígena herdada da mãe, vestes que, em certos momentos, chamavam muito mais a atenção das pessoas do que seus quadros.

Para Lucienne Bloch, fotógrafa e amiga íntima de Frida, Guillermo era querido, muito meticuloso, surdo, mesquinho e Schopenhaueriano. Ela escreveu isso em eu diário após passar um mês na Casa Azul, residência onde morava a família Kahlo. Bloch, que já foi apresentada nesta série, ainda o descreve como uma pessoa pouco deslocada, apaixonado por xadrez, pela música de Beethoven e pela cultua alemã. Começou a fotografar em uma serralheria onde trabalhou por algum tempo e, a partir de 1898, passou a registrar toda a construção no novo armazém, dando início, então, a sua nova profissão de fotógrafo. Existe outra versão sobre o início de sua carreira, que ele teria começado a fotografar profissionalmente enquanto trabalhava na empresa Loeb, mas por falta de documentos probatórios se mantém como verdadeira a história da serralheria. Há ainda uma terceira versão, afirmando que ele aprendeu o ofício ainda na Alemanha, mas, como sugerem os autores Franger e Huhle*, podemos aceitar que a curiosidade artística e o espírito empreendedor de Guillermo foram as razões de seu vínculo com a fotografia.

Em 1901, abriu um estúdio fotográfico para dar conta das encomendas, vendia seus serviços destacando como especialidades fotográficas edifícios, interiores, fábrica e maquinaria. De 1904 em diante, viajou pelo México para fotografar igrejas monumentais sob encomenda do governo à celebração do Centenário da Independência. Anos mais tarde se tornaria fotógrafo industrial, tendo como principal cliente a Fundição de Monterrey. Suas últimas fotografias foram feitas 5 anos antes de sua morte, em 1936, e registram edifícios construídos com aço de Monterrey, a primeira siderúrgica da América Latina. As fotos de indústria ficaram nos arquivos das empresas e ilustraram alguns anúncios, as de igrejas foram reunidas e arquivadas pelo governo em seis álbuns que não chegaram a ser vendidos.

As fotografias que fez de sua família e, principalmente, de sua filha Frida expressam a sensibilidade que Guillermo tinha para criar retratos, mas estas fotografias eram privadas e não havia pretensão de publicá-las.

Seus autorretratos mostram que era vaidoso, gostava de se exibir e de posar para a câmera, revelam um olhar desafiador, traços melancólicos e seu envelhecimento. Quando vistos em ordem cronológica, fazem uma vida de 69 anos passar em minutos, no convidando a reflexões filosóficas sobre o tempo, sobre a vida, enfim. A câmera se transforma em um espelho do seu interior e cria uma comunicação biográfica visual em vez de verbal ou textual. Frida Kahlo pintou um dos autorretratos de Guillermo com sensibilidade suficiente para expressar o mesmo olhar melancólico gravado na fotografia. Para Franger e Huhle não restam dúvidas de que a fixação de Frida por se autorretratar é influência da paixão de seu pai. Para eles, o retrato que Frida pintou de Guillermo é uma imagem faceta de sua própria personalidade, e dizem que ela pintou a complexa relação entre a fotografia e a pintura na obra de ambos.

* Gaby Franger e Rainer huhle, em “O pai misterioso”, texto publicado no segundo capítulo do livro Frida Kahlo: Suas Fotos. 

Frida pintando o retrato de seu pai, Guillermo Kahlo, 1951. Foto: Gisèle Freund. 

Retrato de Guillermo Kahlo pintado por Frida, 1951.

Guillermo Kahlo. 1892. Foto: Nicolás Winther.

Guillermo Kahlo. Autorretrato. 

Guillermo Kahlo. Autorretrato. 

Guillermo Kahlo. Autorretrato. “De vez em quando, lembrem-se do carinho que sempre teve por vocês seu pai Guillermo Kahlo 1925″.

Guillermo Kahlo. “Herr Kahlo depois de chorar”. 1932. Foto: atribuída a Lucienne Bloch. 

Frida aos dois anos. Foto: Guillermo Kahlo.

As irmãs Kahlo Calderón. Da esquerda para a direita: Cristina, Adriana, Matilde e Frida, com 10 anos. Foto: Guillermo Kahlo.

Frida Kahlo, 1926. Foto: Guillermo Kahlo.

Frida Kahlo, 16 de outubro de 1932. Foto: Guillermo Kahlo.

Retrato do casamento dos pais de Frida, Matilde Calderón e Guillermo Kahlo. 21/02/1898. Autor desconhecido. 

Matilde Calderón Kahlo. “Quando virem este retrato, lembrem-se como sua mãe amou cada uma de vocês. 07/02/1919. Foto e legenda: Guillermo Kahlo. 

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Assim encerramos a série Fotógrafos de Frida kahlo, iniciada no final de junho e que completa hoje 10 postagens. No decorrer de quase dois meses apresentamos nove fotógrafos e citamos outros tantos que, de alguma forma, cruzaram o caminho de Frida Kahlo, a fotografaram e nos ajudaram a compreender melhor o universo que cercava e influenciava a artista. Para quem quiser se aprofundar mais no assunto, conhecer outras fotografias e outros fotógrafos, recomendamos o tão mencionado livro Frida Kahlo: Suas Fotos, lançado pela editora Cosac Naify. A todos os leitores, muito obrigado.

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MAIS: 

Apresentação da série

Fotógrafos de Frida Kahlo: Imogen Cunningham

Fotógrafos de Frida Kahlo: Bernard Silberstein

Fotógrafos de Frida Kahlo: Lucienne Bloch

Fotógrafos de Frida Kahlo: Lola Alvarez Bravo

Fotógrafos de Frida Kahlo: Gisèle Freund

Fotógrafos de Frida Kahlo: Nickolas Muray 

Fotógrafos de Frida Kahlo: Edward Weston

Fotógrafos de Frida Kahlo: Manuel Álvarez Bravo

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O livro Frida Kahlo: Suas Fotos (Frida Kahlo: Sus Fotos), lançado em 2010, no Brasil, pela Cosac Naify, traz parte de um acervo inédito que mostra Frida quando menina, seu estúdio, uma série de autorretratos de seu pai, o encontro com Rivera, seu círculo cosmopolita de amigos e a intimidade com diversos personagens. Utilizando como base este livro, criamos a série “Fotógrafos de Frida Kahlo”.

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Sergio Antonio Ulber

Integra o conselho editorial da Foto Grafia, é responsável pelo blog e pela redação da revista e sócio da LAPIS Comunicação e Cultura. Formado em Design Gráfico pela Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI), atualmente é aluno do curso de Pós-Graduação em Fotografia na mesma instituição.

3 respostas para “Fotógrafos de Frida Kahlo: Guillermo Kahlo”

  1. Lad Cristine disse:

    Gostei mto. de saber da história de Frida e família. As fotos são lindas, bela reportagem, Parabens a todos q se empenharam.

  2. Pedro Carneiro disse:

    Vagueando na net sempre à procura de sites sobre fotografia encontro este. É para visitar assiduamente a partir de agora. Parabéns. O que tem de bom na língua portuguesa, para analfabetos como eu, é que do Brasil se fala português, sim porque em Portugal não se erguem sites como este.
    Obrigada

  3. Karla disse:

    Ótimo artigo!! Conheci a ‘casa azul’ na cidade do México!! É vibrante!!

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