Fotógrafos de Frida Kahlo: Lola Alvarez Bravo

por Sergio Antonio Ulber em 25 de julho de 2012

Manejava a câmera com determinação e inteligência, tinha um olhar curioso e treinado. Caçava sempre o instante, atenta, observadora, retratava a essência de qualquer pessoa que surgisse em sua vida. Evitava ao máximo trabalhar com poses ou encenações. Em vez disso, caminhava entre as pessoas em ruas desordenadas, observada trabalhadores, consumidores, pessoas em horário de lazer, enfim, cenas cotidianas. Estava sempre a espreita, pronta para registrar momentos informais em cenas cuidadosamente compostas. Seu olhar aguçado, clínico, produziu imagens comoventes e expressivas sobre a vida mexicana, providas de uma sensibilidade contemporânea que a coloca entre renomados fotógrafos do período moderno, a ponto de ser considerada a primeira fotojornalista mexicana.

Lola Alvarez Bravo. Ano e local desconhecidos. Foto: Juan San Juan.

Dolores Martinez de Anda (1907-1993) nasceu em Jalisco, estado de Guadalajara, no México, em 1907. Conheceu Manuel Alvarez Bravo (1902-2002) ainda quando criança, com quem se casou, em 1925, quando mudou seu nome para Lola Alvarez Bravo. Juntos, mudaram-se para o estado de Oaxaca, ao sul de onde moravam. Com pouco dinheiro, precisavam compartilhar a única câmera que tinham. Conforme mencionado pelo Museu de Arte de Macau (MAM, China), Manuel limitou o âmbito artístico da esposa, mas lhe ensinou muito sobre fotografia, apresentou a câmera, o laboratório e as técnicas que conhecia. Ela se tornou sua assistente, ajudava a desenvolver e imprimir suas imagens. Nunca mais largou a fotografia. Juntos, fotografaram espaços inabitados e um mundo vivido por homens e mulheres. Nunca idealizaram o rosto indígena ou a vida rural, nem converteram as crenças religiosas do interior em mero folclore. Com pintores, músicos e poetas de sua geração, encontravam objetos de estudo interessantíssimos onde outros encontravam apenas sujeira e pobreza.

O casal foi vital para a cultura mexicana, eram amigos de muitos intelectuais e artistas da época, pessoas conhecidas como Diego Rivera, Frida Kahlo, Edward Weston, Rufino Tamayo, Maria Izquierdo e David Alfaro Siquerios. Em 1935, quando se divorciaram, Lola começou a fotografar para a revista El maestro rural, publicada pela Secretaria de Educação. Se tornou grande amiga de Frida Kahlo e Maria Izquierdo, pintoras mexicanas. Seu zelo a fez abrir uma galeria de arte contemporânea, onde foi realizada a primeira exposição individual de Frida Kahlo em seu país natal, no ano de 1953.

Frida Kahlo ao lado do autorretrato de Diego Rivera, feito em 1930. Por volta de 1945. Foto: Lola Alvarez Bravo.

Lola alcançou sua estética particular entre as décadas de 40 e 50, concentrando-se em duas formas de trabalho: retratos e fotografia de rua. Com suas imagens envolventes, conseguiu encontrar um meio de revelar o lirismo do mundo que tinha ao seu redor, produzindo devaneios silenciosos sobre o momento em que estava vivendo. Seus estudos sobre o corpo humano, tanto feminino quanto masculino, são principalmente sobre composição. Linhas fortes, bem como contrastes de luz dramáticos caracterizam seu trabalho. É importante notar que a força das mulheres fotografadas emana de seus corpos, tornando-se bandeiras de vitalidade pessoal e psíquica.

Ela aceitava a realidade em frente a lente. Sua presença raramente é sentida na imagem. Normalmente registra seus modelos desprevenidos, vistos de trás ou de lado, surpreendidos em afazeres domésticos e em devaneios. Este distanciamento voluntário – que não nega sua subjetividade – não se traduz em imagens frias e impessoais, mas em imagens sobrecarregadas de intimidade. A visão reflexiva de Lola é sempre respeitosa, profundamente humana. Desapressada, ela paira sobre as pessoas com um olhar terno que fornece a suas imagens uma franqueza incomum. Seu olhar de testemunha fiel transmite o que ela vê e sente.

Maternidade.  1960. Foto: Lola Alvarez Bravo.

Nos anos 20 e 30, as mulheres haviam encontrado uma musa artística: Mari Asunsolo, Lupe Marin e Nahui Olin, que abriram novas possibilidades para a nova geração de mulheres mexicanas. No entanto, apenas Frida Kahlo, Maria Izquierdo e Lola Alvarez Bravo surgiram como criadoras, representando a independência feminina. Enquanto Frida e Maria trabalhavam em estúdios, cercadas por parentes e amigos, Lola andava pelas ruas, sozinha. “Eu era a única mulher em volta que tinha uma câmera, todos os repórteres riam de mim. Então, me tornei uma guerreira”.

Durante sua longa carreira, Lola trabalhou como retratista, fotojornalista, fotógrafa comercial, artista, professora e curadora. Apesar de seu sucesso profissional, são as fotografias que marcam sua contribuição mais significativa para a história. As mais valorizadas e significativas, no sentido antropológico, estão conservadas no Centro de Fotografia Criativa da Universidade do Arizona, nos Estados Unidos. Seus estudos intransigentes do povo mexicano oferecem um capítulo importante da história da fotografia, servem tanto de inspiração quanto registro. Enquanto trabalhava profissionalmente, também conservou um pequeno grupo de fotografias que considerava seu trabalho autoral, chamava de “Mis fotos, mi arte” (minhas fotos, minha arte).

Seu trabalho faz parte de inúmeras coleções, incluindo o Museu de Belas Artes, em Houston, Museum of Modern Art, Nova York e do já mencionado Centro de Fotografia Criativa da Universidade do Arizona. Apesar de toda independência conquistada obstinadamente ao longo de sua vida,  sempre manteve o nome de casada. Além de ser uma forma de reconhecer suas origens, era profissionalmente conhecida por Lola Alvarez Bravo. Com este nome, ela adotou um padrão de conduta, um estilo e, acima de tudo, ética. Em 1982, publicou dois livros, Escritores y artistas e Recuento fotográfico. Lola participou de inúmeras exposições fotográficas dentro e fora do México. Morreu em 1993, na capital mexicana, onde passou a maior parte de sua vida.

Frida no espelho. Década de 40. Foto: Lola Alvarez Bravo. 

Frida Kahlo com um de seus cachorros xoloitzcuintle. 1944. Foto: Lola Alvarez Bravo. 

  Frida Kahlo em seu quarto. Data desconhecida. Foto: Lola Alvarez Bravo. 

Frida Kahlo em seu leito de morte. 1954. Foto: Lola Álvarez Bravo.

Diego Rivera. 1945. Foto: Lola Alvarez Bravo. 

Diego Rivera. 1950. Foto: Lola Alvarez Bravo. 

Autorretrato. 1950.

Los gorrones. 1955. Foto: Lola Alvarez Bravo. 

Crânio pendurado. 1960. Foto: Lola Alvarez Bravo.

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O livro Frida Kahlo: Suas Fotos (Frida Kahlo: Sus Fotos), lançado em 2010, no Brasil, pela Cosac Naify, traz parte de um acervo inédito que mostra Frida quando menina, seu estúdio, uma série de autorretratos de seu pai, o encontro com Rivera, seu círculo cosmopolita de amigos e a intimidade com diversos personagens. Utilizando como base este livro, criamos a série “Fotógrafos de Frida Kahlo”.

 

 

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Sergio Antonio Ulber

Integra o conselho editorial da Foto Grafia, é responsável pelo blog e pela redação da revista e sócio da LAPIS Comunicação e Cultura. Formado em Design Gráfico pela Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI), atualmente é aluno do curso de Pós-Graduação em Fotografia na mesma instituição.

Uma resposta para “Fotógrafos de Frida Kahlo: Lola Alvarez Bravo”

  1. anrafera disse:

    Detallistas, expresivas…estupendas fotografías las que has escogido para esta interesante entrada.
    Saludos.
    Ramón

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