Fotógrafos de Frida Kahlo: Lucienne Bloch

por Sergio Antonio Ulber em 18 de julho de 2012

Durante um banquete realizado no Museu de Arte Moderna, em Nova York, Lucienne Bloch (1909-1999) conheceu uma das pessoas que mudaria sua vida para sempre: o artista muralista mexicano Diego Rivera (1886-1957). Lucienne foi convidada a sentar ao lado de Diego não só porque ambos eram artistas, mas também porque falavam francês fluentemente. Conversaram durante horas. Diego estava produzindo sete afrescos para a nova exposição que o Museu estava preparando. Com ele, Lucienne se deu conta que todo seu conhecimento sobre afrescos, tradição artística utilizada durante os séculos XIV e XV por seus renascentistas favoritos, Michelangelo e Da Vinci, estava errado. Queria fazer afrescos, aprender, produzir. Ficava extasiada com novas aventuras artísticas. Perguntou a Diego se poderia preparar os pigmentos que seriam utilizados nestes trabalhos. Para sua surpresa, Diego aceitou e marcou trabalho logo para o próximo dia, as 8 horas da manhã.

Durante esta mesma noite no Museu, Lucienne foi cumprimentar a esposa de Diego, uma mulher jovem, intrigante, de beleza exótica, com grandes e penetrantes olhos castanhos, vestida com uma colorida e tradicional roupa mexicana. Quando Lucienne a cumprimentou entusiasmada, Frida Kahlo respondeu: eu te odeio. Ela estava reparando nos dois durante toda a noite. Lucienne, em vez de se assustar com a reação de Frida, ficou por ela mais fascinada do que nunca. Ouvir de Frida palavras tão reais e sinceras era revigorante. Por incrível que pareça, tornaram-se grandes amigas, construíram uma amizade íntegra com base na honestidade e confiança. Frida percebeu que Lucienne estava apaixonada pelo trabalho de Diego Rivera, e não pelo pintor.

Frida mordendo seu colar / Frida piscando. Nova York, EUA, 1933. Fotos: Lucienne Bloch. 

Prelúdio

Ernest Bloch (1880-1959), pai de Lucienne, era músico, compositor e fotógrafo. Moravam em Genebra, na Suíça, cidade onde Lucienne nasceu. Muito influenciada por ele, que, em casa, incentivava discussões sobre problemas sociais como racismo, probreza e lutas de classes, por vezes o acompanhava nas reuniões com amigos ecléticos, onde comiam, bebiam e conversavam sobre assuntos contemporâneos que discorriam entre música, literatura e arte em geral.

Apesar de todo o incentivo de Ernest, quando criança Lucienne não gostava de estudar música, mas devorava livros de arte. Tamanho interesse resultou em um projeto artístico, quando decidiu escrever e ilustrar seu próprio livro, O coelho mágico,  elaborado aos 11 anos de idade. Chegou até a enviar o piloto para uma editora, mas recusaram a publicação. Nesta época, Lucienne e sua família moravam nos Estados Unidos – saíram da Suíça por causa das tensões geradas pela guerra e pelo antissemitismo que inquietavam a Europa. Seu primeiro trabalho artístico, mal sabia, seria publicado apenas quatro anos mais tarde, aos 15, quando ilustraria as 10 peças de piano que seu pai compôs para crianças, no mesmo ano em que seria admitida no Instituto de Artes de Cleveland.

Começou a fotografar também por influencia de Ernst, como já era de se imaginar. Com 5 anos de idade, ainda na Suiça, ajudava seu pai a expor ao sol negativos sobre papéis fotográficos. Aos 12, ganhou dele sua primeira câmera fotográfica, uma Brownie.

Seguindo as ordens de Ernest, que desejava ver as filhas explorando novas possibilidades enquanto ainda estavam solteiras, foi para Paris com sua mãe e com suas irmãs, em 1925, quando tinha 16 anos. Lá se ocupou, estudou escultura e pintura, participou de vários projetos e criou um círculo de amigos parecido com o que frequentava as reuniões de Ernest. Ainda em Paris, durante uma das visitas de seu pai, ganhou dele uma Leica 35 mm. Ficou tão deslumbrada que registrou em seu diário: se as mulheres sentem tanta emoção com um colar de pérolas quanto eu sinto segurando esta câmera, eu entendo suas loucuras.

Lucianne Bloch, Genebra, Suíça, 1910. Foto: Ernest Bloch / Lucienne, Paris, França, 1926. Autor desconhecido. 

Em 1928 seus pais foram convidados a voltar para a Suíça, onde Lucienne os acompanhou por cerca de um ano. Em companhia de Ernest explorava montanhas, fazia caminhadas, colhia cogumelos, desenhava, pintava com aquarela e, claro, fotografava.

Quando foi para a Holanda, em 1929, também por intermédio de Ernest, ocupou-se com arte e transcendia a essência de seus arredores nas mais variadas formas, experimentava todas as técnicas que podia. Enquanto trabalhava em uma fábrica de vidros holandesa, foi pioneira no desenvolvimento de um projeto que estudava o design em esculturas com vidro. Em 1931, foi para Nova York, onde fez uma exposição individual com as esculturas de vidro. Nova York foi uma cidade muito fotografada por ela, dava a cenas banais um sentido de ser, registrava a natureza humana filtrada por seu olhar estrangeiro.

Relação com Frida Kahlo

Lucienne acompanhou Frida e Diego durante a estadia do casal em Detroit, Michigan, nos Estados Unidos. Frida estava confortável na posição de esposa e dona de casa, mas odiava o país e não estava mais produzindo. Diego pediu a Lucienne que ajudasse Frida a achar novas inspirações para criar novamente. As duas montaram um estúdio no apartamento que se assemelhava a uma escola de artes. Frida dizia que precisava deste ambiente para conseguir inspiração. Além de criarem juntas, Lucienne ensinava inglês para Frida, Frida ensinava espanhol para Lucienne, estudavam culinária e, o mais importante, sentiam-se realizadas. 

Frida com uma garrafa de Cinzano. Nova York, EUA, 1935. / Frida no Hotel Plaza Barbizaon. Nova York, EUA, 1933. Fotos: Lucienne Bloch.

Apesar do envolvimento com Frida, Lucienne não deixou de ajudar Diego Rivera com os murais, afinal foi para Detroit justamente para dar continuidade ao trabalho de assistente. Trabalhavam no Instituto de Arte de Detroit. Lucienne aprendeu todo o processo de produção de um afresco, ouviu todas as lições atentamente e estava ansiosa para experimentar todas as técnicas em produções autorais.

Pouco tempo depois, Frida descobriu que estava grávida. Apesar de toda sua felicidade, assuntos tristes e sérios deveriam ser discutidos. O médico recomendou que Frida abortasse, pois sua saúde estava em risco. Frida não deu ouvidos e decidiu manter a gravidez, cuidar de si mesma e fazer tudo que fosse possível para ter esse filho. Certa noite, Lucienne foi acordada pelo choro e pelos piores gritos de desespero que vinham do quarto de Frida Kahlo. Foi até lá e a encontrou em meio a uma piscina de sangue, com o cabelo ensopado e lágrimas molhando toda sua face. Berrava de agonia. Rivera pediu para Lucianne chamar o doutor, a ambulância chegou e levou Frida ao hospital, onde ela dolorosamente perdeu seu bebe.

Pinturas de Frida Kahlo em progresso. Detroit, EUA, 1933. Fotos: Lucienne Bloch. 

Lucienne ajudou Frida a se recuperar de um dos piores anos de sua vida. Ela incentivou Frida a pintar novamente. Frida pintava pequenas telas que Lucienne considerava extraordinárias, dizia que suas telas eram tão grandiosas em suas dimensões como eram os murais pintados por Diego Rivera. As duas foram encorajadas por ele a trabalhar com litografia. Estudaram juntas um guia de arte, tentavam, erravam, tentavam novamente, acertavam, aprimoravam a técnica até que, enfim, aprenderam a litografar. Enquanto o primeiro trabalho de Luciene trazia um playground de Detroit com crianças brincando, o de Frida era um autorretrato em prantos, rodeada por sangue, com seu feto e suas células divididas, cujo cenário era o Hospital Henry Ford. Enquanto Lucienne explorava a técnica e produzia várias imagens, Frida só fez uma, se descobriu impaciente para litografar.

Quando um dia Frida recebeu um telegrama do México informando que sua mãe estava muito doente, Diego pediu para Lucienne acompanhá-la nesta viagem, disse que pagaria tudo. Lucienne novamente se empolgou com a aventura que estava por vir. Registrou toda viagem com sua Brownie, pois a Leica estava em Nova York sendo consertada. Mesmo passando muito tempo sozinha, ela desfrutou a nova experiencia de todas as maneiras possíveis.  A nova cultura, as pessoas e os lugares mexiam com seus sentidos, descobriu um novo mundo, totalmente diferente dos que já conhecia, se encantou pela música, abraçou a nova vida. Achava linda a casa azul onde viviam os pais de Frida, cor que contrastava com os ornamentos pintados em cor-de-rosa. Discutia profundamente sobre fotografia com Guillermo Kahlo (1872-1941), que também era fotógrafo. Foi na casa azul (onde é hoje o Museu Frida Kahlo), enquanto jogavam xadrez, que receberam a triste notícia do falecimento de Matilde Calderón (1876-1932), mãe de Frida e esposa de Guillermo Kahlo, morta após enfrentar horas de cirurgia.

Após a morte de Matilde, voltaram para Detroit. Entre Frida e Lucienne havia um entendimento oculto, silencioso, subliminar. Se compreendiam. Eram amigas e artistas, independentes e fortes, nunca conformadas com os padrões impostos pelo tempo em que viveram. O tempo que passou com ela e com Diego Rivera foi crucial para o desenvolvimento do senso artístico particular de Lucienne. Aprendeu que deveria pesquisar a fundo todos os assuntos que pretendia abordar em suas obras. Percebeu que o casal era ousado, transformavam as dificuldades e os conflitos da vida em vantagens, percebeu também que podia ir contra os padrões da sociedade, como acreditava no passado, e que essa era o caminho para se tornar uma verdadeira artista.

Diego Rivera pintando. / Frida em frente a um painel em progresso. Nova York, EUA, 1933. Fotos: Lucienne Bloch. 

Já nos Estados Unidos, Lucienne decidiu viajar para Wisconsin, contrariando a opinião de Diego. Dizia que precisava alimentar seu espírito de aventureira e queria conferir o que estava acontecendo por lá, onde ficava a escola de artes de Frank Lloyd Wright, Taliesin. Descobriu que não era exatamente como esperava. Na verdade a escola ainda estava sendo criada. Os artistas iniciantes trabalhavam na fundação e mal tinham tempo para desenvolver seus próprios trabalhos artísticos. Apesar conseguir prever uma vida idílica para uma jovem artista, ali, em Taliesin, ela queria ir além, queria fazer mais, viajar, queria viver sozinha, viver apenas com sua arte, encontrando seus próprios meios de subsistência.

Novos rumos

No início de 1933, voltou a Nova York, onde estudou arte, aprimorou sua habilidades em fotografia, litografia, escultura, xilogravura e aquarela. Apesar de tudo, queria ainda encontrar um amor, alguém como sempre sonhou, com o espírito explorador como o dela. Os dois homens com quem namorou não cumpriram com suas expectativas. Casaria-se 2 anos depois, em 1935, com Stephen Pope Dimitroff, conhecido por Dimi, que era assistente de Diego Rivera.

Dimi nasceu na Bulgária e mudou-se para os Estados Unidos com 10 anos de idade. Era artista, músico e poeta. Ele e Lucienne tornaram-se professores e influenciaram muitos estudantes universitários. Ensinavam a técnica do afresco e acabaram contribuindo, consequentemente, para a preservação desta arte. Vale frisar que praticamente tudo o que sabiam sobre a pintura de murais haviam aprendido com ninguém menos que o grande mestre muralista Diego Rivera. Suas aulas eram tão bem ministradas e exerciam a profissão com tamanha dedicação que a relação com os alunos era quase familiar.

Com o nascimento de seu primeiro filho, em 1938, o casal se mudou para Flint, cidade natal de Dimi, em Michigan, nos Estados Unidos, onde ela ministrava aulas de artes no Instituto de Artes da cidade. Era também colunista no jornal local e nunca deixou de produzir suas obras autorais. Viveram em Flint por 8 anos, tiveram mais dois filhos e decidiram que novamente havia chegado a hora de partir. Venderam a casa com tudo dentro, lotaram o carro e partiram rumo ao oeste. Chegaram na Califórnia. Lá ficaram por 15 anos enquanto seus filhos frequentavam a escola. Lucienne continuava lecionando artes e produzindo. No início da década de 60, mudaram-se novamente, desta vez para um pequeno município litorâneo, ao sul de onde estavam, chamado Mendocino. Este foi o último lugar que habitaram. Stephen Dimitroff faleceu em casa, no ano de 1996, dois anos e meio antes da morte de Lucienne. Ela faleceu com 90 anos, no mesmo quarto onde Dimi partiu.

Lucienne com seus três filhos. Data e autor desconhecidos. / Lucienne Bloch. Data e autor desconhecidos.

A arte, metamorfose que é, nunca parou de mudar e de se reinventar enquanto Lucienne estava ativa, mas ela esteve sempre apoiada em seus próprios valores. Não se importava com as tendências, com o que estava em voga. Para ela, o importante era não seguir os passos de ninguém, mas trilhar seu próprio caminho. Foi várias vezes premiada pelos diversos tipos de arte que criava e publicou muitos artigos. A relação que manteve com Diego Rivera e com Frida Kahlo despertou a curiosidade de muitos estudiosos e artistas, que requisitavam um minuto de seu tempo para ouvir seus relatos, sustentados e ilustrados pelas fotografias que colecionou durante toda sua vida.

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www.luciennebloch.com

 

Frida e Diego no parque Belle Isle. EUA, 1932. / Frida e Diego flagrados no beijo. Nova York, EUA, 1933. Fotos: Lucienne Bloch.

 

Operários no guindaste. Nova York, EUA, 1933. / Mendigo dormindo nos trilho de trem. Nova York, EUA, 1935. Fotos: Lucienne Bloch.

Carros na neve.  Nova York, EUA, 1931. / Família asiática. Nova York, EUA, 1935. Fotos: Lucienne Bloch.

Crianças trabalhadoras. Flint, EUA, 1936. / Ouça-me falar. Detroit, EUA, 1936. Fotos: Lucienne Bloch.

Afresco pintado por Lucienne Bloch, em 1945, na casa de detenção para mulheres, em Nova York, EUA. / Escultura de vidro, data desconhecida. Lucienne Bloch. 

Beby the clown. 1927. Cerâmica. / Cachoeira descendo  a montanha. 1927. Xilogravura. / Obras de Lucienne Bloch. 

 

Fonte / Fonte

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O livro Frida Kahlo: Suas Fotos (Frida Kahlo: Sus Fotos), lançado em 2010, no Brasil, pela Cosac Naify, traz parte de um acervo inédito que mostra Frida quando menina, seu estúdio, uma série de autorretratos de seu pai, o encontro com Rivera, seu círculo cosmopolita de amigos e a intimidade com diversos personagens. Utilizando como base este livro, criamos a série “Fotógrafos de Frida Kahlo”.

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Sergio Antonio Ulber

Integra o conselho editorial da Foto Grafia, é responsável pelo blog e pela redação da revista e sócio da LAPIS Comunicação e Cultura. Formado em Design Gráfico pela Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI), atualmente é aluno do curso de Pós-Graduação em Fotografia na mesma instituição.

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