Um mercado de trabalho amplo, mas carente de profissionais capacitados
Por Karina Pizzini

Nem sempre as lentes da câmera capturam a cena como os olhos do fotógrafo. Nos últimos dez anos, seja na fotografia artística, editorial, publicitária, jornalística, de moda ou de embalagem, a imagem raramente é impressa sem antes passar por um processo de tratamento digital, mesmo que mínimo.

Desde o final do século XX, houve uma transformação no conceito fotográfico a partir da acessibilidade à fotografia digital. A edição de imagens já ocorria anteriormente em laboratórios tradicionais, mas o leque de possibilidades dos softwares oferecidos no mercado hoje supera as limitações da câmera e dos antigos laboratórios.

Este conceito de edição de imagens busca equalização de cores, ajustes de brilho, nitidez e outros aspectos fotográficos, gerenciamento de objetos, pessoas e fundo de imagens. Antes da era digital, esse trabalho era braçal e focado, já que o número de fotografias era mais limitado do que atualmente, quando as novas tecnologias permitem despejar no mercado um volume de imagens sem precedentes na história dessa arte.

APLICATIVOS

Dentre as várias opções de softwares existentes, é indiscutível a popularidade do aplicativo Adobe Photoshop. O programa foi lançado pelo Adobe em 1990, mas criado em 1987 pelo americano Thomas Knoll. Com um número incalculável de usuários, o software já está em sua décima segunda versão, além de estar presente no pacote de aplicativos Adobe Creative Suite 5 (CS5). O CS5 estreou no Brasil no dia 12 de abril de 2010 e conta com mais de 250 novos recursos. “Remova qualquer elemento de imagem e veja o espaço ser preenchido como se fosse mágica”, sugere a empresa em seu site oficial.

Apesar do sucesso do Photoshop, outros aplicativos também são conhecidos e utilizados no mercado, como o Adobe Lightroom. Este aplicativo veio agilizar o processo de edição para uma quantidade maior de fotografias. Porém, conforme o membro da National Association of Photoshop Professional – USA (Associação Nacional de Profissionais do Photoshop nos Estados Unidos), Altair Hoppe, as duas ferramentas devem ser usadas juntas. “Nos últimos três anos o Photoshop teve uma gravidez e ganhou um filho, o Adobe Photoshop Lightroom, que é um photoshop sintético com algumas facilidades, principalmente para quem trabalha com grande volume de fotos”, esclarece.

MERCADO

Uma vez que a ferramenta mais utilizada no tratamento de imagens é o Adobe Photoshop, um aplicativo acessível para amadores e profissionais, a banalização do recurso passou a contaminar o mercado profissional. O fotógrafo e professor de fotografia, detentor de um Certified Adobe Expert (título dado a uma pessoa que alcançou nível profissional de eficiência em um ou mais softwares do Adobe), Guilherme Becker, comenta que hoje em dia qualquer pessoa pode ter o programa no seu computador, mas poucos têm o conhecimento aprofundado para operá-lo.

Becker faz a edição das próprias imagens, mesmo acreditando que essa não seja função do fotógrafo. “Ele tem que saber fotografar e gerenciar seu arquivo, assim como o diretor de arte tem que criar, mas essa preparação do arquivo para impressão e outras mídias tem que ser responsabilidade do tratador de imagem”. Para ele, o conhecimento teórico sobre fotografia ou artes é importante para a realização da edição de imagens. “O profissional tem uma chance maior ao trabalhar com um conceito mais elaborado; se conseguir usar essas ferramentas em prol de uma ideia criativa, e não usar a ideia criativa sobre a ferramenta”, recomenda.

O empresário e fotógrafo Luiz Henrique Chiquetti Krambeck, dono de uma empresa de fotografia e edição em Santa Catarina, apesar de não achar necessária a formação universitária, espera que um tratador de imagens tenha domínio sobre as ferramentas. “Exijo que tenha conhecimento em Photoshop e Lightroom, porém alguns atributos como a compreensão sobre iluminação e fotografia básica ajudam muito no resultado final e no tratamento das fotos”. Há quase dez anos no mercado, Krambeck tem em sua equipe dois fotógrafos que editam suas próprias imagens.

O publicitário e dono de uma empresa que presta serviços de tratamento e manipulação de imagens, Marcelo André Hass, acredita que existam poucos especialistas na área, apesar de todo o espaço que o mercado oferece. “Por esse motivo, moldamos os profissionais internamente conforme as nossas necessidades”, explica. Para ele, este ainda não é um setor consolidado no mercado devido a uma idéia distorcida da profissão. “Uma dificuldade que temos é de conseguir colocar na cabeça das pessoas que o tratamento de imagem não serve apenas para arrumar defeitos, e sim para agregar valor a uma fotografia”.

AUTO-ESTIMA

A designer gráfico há quatro anos que trabalha com criação e tratamento de imagens, Luana Portella, considera esta uma carreira valorizada, mas corrompida por tratadores despreparados. “Eles cobram muito pouco, desvalorizando o trabalho”, reclama. Hoppe também acredita que este seja um mercado aberto, porém muito carente de profissionais capacitados, e adverte: “Temos excelentes profissionais no mercado, mas acho que falta auto-estima neles. Se você não dá valor ao seu trabalho, ninguém dará”.

Apesar das oportunidades no setor, e da valorização do profissional, muitas empresas ainda impõem acúmulo de funções, quando profissionais de outros setores acabam fazendo o trabalho do editor de imagens e vice-versa. “Creio que agências pequenas não tenham um cargo específico para isso. Nós geralmente esperamos que quem produz as fotos as entregue tratadas”, diz o responsável pela área de criação de uma agência de publicidade de Itajaí, Jerônimo Costa. “Quanto a tratadores de fotos, vejo que há falta, pois já procuramos por alguns ‘freelas’ (profissionais que prestam serviço temporariamente sem vínculo empregatício) e não encontramos”, acrescenta.

O mercado de edição é carente de profissionais capacitados para agregar valor artístico às imagens, como observa o publicitário Marcelo Hass, por se tratar de um ramo deficiente em profissionalização específica. As possibilidades de especialização ainda são limitadas. Seja nas universidades ou em cursos técnicos, o sucesso na carreira de tratador depende, principalmente, da valorização e empenho do próprio profissional. Becker e Hoppe acreditam que a busca por cursos, workshops e palestras é muito produtiva, o que depende de um empenho extra do profissional, já que este tipo de especialização geralmente só é oferecido nas grandes capitais do país.

FORMAÇÃO

Ambos também concordam que para este trabalho, seja em um estúdio fotográfico, uma agência de publicidade ou mesmo em uma empresa de edição e manipulação de imagens, o tratador deve ter mais do que conhecimento técnico de Photoshop. Para eles, o profissional deve ter visão de mundo, de fotografia, de vida e de “gente”. Hoppe afirma que tanto fotógrafos quanto editores precisam conhecer e entender “de gente”, para assim conseguirem ampliar ou aplicar valores à imagem.

O aperfeiçoamento nessa área é um desafio para os profissionais brasileiros, a julgar pelo número escasso de publicações e autores voltados à fotografia nos catálogos do país. Para Hoppe, enquanto o Brasil não tiver produções próprias que gerem educação e preparação profissional, sempre ficaremos defasados em relação a outros países. “Enquanto não criarmos uma cultura nossa e transformarmos isso em obras, de fato o Brasil vai continuar nesse nível”.

Cursos e workshops são oferecidos online e alguns autores, como o próprio Altair Hoppe, viajam o país oferecendo palestras relacionadas ao Photoshop. Oportunidade em que ele utiliza as informações de seus livros “Adobe Photoshop: para fotógrafos, designers e operadores digitais”, da iPhoto Editora. Outros títulos (entre os poucos) sobre o assunto e que podem ser usados como fonte de pesquisa são a obra do especialista em tratamento e edição de imagens, Alexandre Keese, “Tratamento e Edição Profissional de Imagens”, da Editora Desktop, e o livro Adobe Photoshop Lightroom 3, da editora Photos, escrito por Clício Barroso.

Links Relacionados:

http://www.revistafotografia.com.br/editando-imagens-em-1987/

Olho:

“Hoje em dia qualquer pessoa pode ter o Photoshop no seu computador, mas poucos têm o conhecimento aprofundado para operá-lo”

“O profissional deve usar as ferramentas em prol de uma ideia criativa, e não usar a ideia criativa sobre a ferramenta”

“O tratamento de imagem não serve apenas para arrumar defeitos, e sim para agregar valor a uma fotografia”

“Seja nas universidades ou em cursos técnicos, o sucesso na carreira de tratador depende, principalmente, da valorização e empenho do próprio profissional”

  • http://www.revistafotografia.com.br/revista/foto-grafia-09/

    Cássio Vasconcellos realiza centenas de fotografias aéreas e une as imagens em uma só, criando cenas panorâmicas apresentadas em enormes e impressionantes painéis. Alexandre Severo registra o dia-a-dia de três crianças albinas, filhas de pais negros, que vivem na favela V-9, em Pernambuco, e tem fotografia selecionada pela agência Reuters como uma das Imagens do Ano (Pictures of the Year). A fotógrafa Anna Kahn consegue, com muita sensibilidade, fotografar o ausente, lançando um novo olhar a respeito das vítimas de bala perdida no Rio de Janeiro. Breno Rotatori presenteou sua avó com uma câmera analógica e registrou os atos fotográficos dela com sua câmera digital, criando dípticos que, além de transmitir uma sensação de tridimensionalidade, apresentam imagens que parecem estar em outro espaço-tempo. O foco seletivo de Claudio Edinger traz a Serra Catarinense em belas imagens que mostram os habitantes e as paisagens de uma região que, para o fotógrafo, parece ser de outro país. Pedro Motta fecha a edição com o projeto Reação Natural, revelando a sobrevida da natureza em meio ao caos urbanos, com imagens de plantas que se adaptam ao concreto e de construções que respeitam o espaço da natureza.

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  • http://www.revistafotografia.com.br/revista/foto-grafia-08/

    Rosely Nakagawa, curadora fotográfica atuante no mercado há mais de 30 anos, analisa o trabalho da fotógrafa Elisa Elsie na Leitura de Portfólio. Iatã Cannabrava, fotógrafo, curador e produtor cultural, vislumbra o futuro da produção cultural no Brasil e fala sobre o fazer coletivo, algo que vem se tornando cada vez mais comum. Na coluna Click Literário, de Marcelo Juchem, a discussão gira em torno do livro A Câmera Clara, de Roland Barthes. Em Luz para todos, reportagem da seção Universo Fotográfico, o assunto da vez é a fotografia humanitária, área em que profissionais engajados transformam seu trabalho em ferramentas de transformação social. Ensaios fotográficos, projeto de capa, artigos científicos e indicações na rede completam a edição, que está imperdível.

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  • http://www.revistafotografia.com.br/revista/foto-grafia-07/

    A revista destaca a participação de Luiz Garrido na Leitura de Portfólio, entrevista com Sergio Burgi, coordenador de fotografia do Instituto Moreira Salles, sobre a importância da preservação dos arquivos iconográficos e a matéria sobre Cinematografia com a colaboração de importantes nomes do cinema nacional. A edição conta também com Susan Sontag na coluna Click Literário, indicações na rede, ensaios fotográficos e artigos científicos elaborados por leitores da revista.

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  • http://www.revistafotografia.com.br/revista/foto-grafia-06/

    Opinião com Simonetta Persichetti, Leitura de Portfólio com Adriano Gambarini, Fotopintura Contemporânea, Evgen Bavcar na Coluna Click Literário, Ensaios Fotográficos, Artigos Científicos, Projeto de Capa e Indicações.

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  • http://www.revistafotografia.com.br/revista/foto-grafia-05/

    A revista destaca a participação de dois grandes nomes da fotografia brasileira: o Fotojornalista Evandro Teixeira, analisando o portfólio de uma jovem fotógrafa que atua neste ramo há apenas quatro anos e a Editora da antiga revista Iris Foto, Denise Camargo, opinando sobre a disponibilização gratuita de conteúdos fotográficos na internet. A jornalista Karina Pizzini fala sobre a edição de imagens, um mercado de trabalho amplo, mas carente de profissionais capacitados. A edição conta também com os ensaios fotográficos e artigos científicos elaborados por leitores da revista Foto Grafia.

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  • http://www.revistafotografia.com.br/revista/foto-grafia-04/

    Conheça a mostra, os artistas e as obras brasileiras que foram ao PIP 2010 (Pingyao International Photography Festival), um dos maiores festivais de fotografia do mundo, realizado na cidade de Pingyao, China. A matéria é de autoria de Ângela Magalhães e Nadja Peregrino, Curadoras da mostra “Um Certo Brasil”. Há mais de 30 anos atuando no mercado fotográfico, experiência profissional é o que não falta ao Kazuo Okubo, Fotógrafo que analisou o projeto “Como Você Se Vê?”, de Raphael Delesderrier, artista com 4 anos de carreira. O Professor Marcelo Juchem estréia sua Coluna sobre obras literárias fornecendo diversas dicas para auxiliar os Fotógrafos na hora de escolher o melhor livro para tirar da prateleira.

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  • http://www.revistafotografia.com.br/revista/foto-grafia-03/

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  • http://www.revistafotografia.com.br/revista/foto-grafia-02/

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  • http://www.revistafotografia.com.br/revista/foto-grafia-01/

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