Por Denise Camargo**
Em uma entrevista, em meados da década 1990, o filósofo francês Philippe Dubois afirma que é cada vez mais difícil saber o que é a imagem fotográfica hoje. Flexibilidade, nomadismo e mestiçagem permeiam a produção fotográfica contemporânea. Tanto pelos processos tecnológicos que ultrapassam o conceito de imagem técnica mediada pelo aparelho, quanto pela valorização do processo criativo e da convergência de mídias no fazer mais do que fotográfico, imagético.
Embora as câmeras se apropriem ainda do perspectivismo peculiar ao projeto renascentista de representação da realidade, como pontua Arlindo Machado em A Ilusão especular, a imagem fotográfica passa por uma espécie de atualização em virtude do modo como vem sendo concebida nos âmbitos comunicacionais e artísticos. A denominação fotografia expandida, cunhada por Andreas Müller Pöhle, evoca ainda uma nova natureza da imagem fotográfica e ressalta a pertinência do híbrido, colocando-o como elemento substancial para a imagem do nosso tempo, ou seja, a fotografia como conceito expandido, como expressão de seu conceito, como nos diz Machado, na coletânea de artigos do livro O quarto iconoclasmo.

No contexto do hibridismo, as tecnologias digitais são responsáveis por transformações significativas no processo de produção das imagens, deslocando para o que se convencionou chamar de pós-produção boa parte de sua relevância, sobretudo se pensarmos na adesão da imagem fotográfica aos novos meios. Mercado em grande expansão, cada vez mais a Internet está suplantando os meios de comunicação tradicionais, graças a sua agilidade, interatividade e flexibilidade no suporte a diferentes meios, tecnologias, linguagens e processos.

Nesse universo, as redes sociais e os websites contemplam generosamente uma fotografia ainda ditada pelos cânones de uma tradição que remonta a seus primórdios, ou o que André Rouillé, em A Fotografia entre documento e arte contemporânea, denomina “a arte dos fotógrafos”. É que o fazem, em geral, usando esse campo do conhecimento e das artes como ilustração, ou como uma ferramenta para criar visibilidade aos fotógrafos, em verdadeiras vitrines para agenciar seus trabalhos individuais, de agências ou estúdios a que pertencem. Grandes instituições como fundações e museus no mundo todo também colocam em seu endereço on-line suas principais atividades e programações. Quanto às revistas eletrônicas indexadas a respeito da produção intelectual sobre Fotografia, temos no Brasil uma única publicação, a Studium.

E, num mercado de bem poucas revistas segmentadas para a área, são os blogs, ferramentas inovadoras e atraentes que, recentemente, têm-se dedicado a noticiar exposições, lançamentos de livros, equipamentos, enfim, a programação e as novidades do setor. Alguns colocam à disposição do internauta reflexões críticas sobre a imagem fotográfica, como o Dobras Visuais e o Icônica, dois bons exemplos de produtos que propõem uma discussão diferenciada e de fundo para a imagem fotográfica, de modo abrangente. Também são comuns websites e blogs que divulgam determinados eventos relacionados à fotografia, como os diferentes festivais que fazem parte de um já tradicional calendário anual em todas as regiões do País.

Em campo fecundo, a Internet fertiliza a notícia e a reflexão sobre a fotografia, em geral, de forma gratuita, o que viabiliza sua difusão a diferentes públicos. Entretanto, ao menos um desafio marca a fotografia na Internet: os conteúdos hoje disponíveis ainda não alcançaram todas as possibilidades propiciadas pelo próprio meio, muito provavelmente porque fotógrafos, de modo geral, ainda são pautados por um certo conservadorismo, o mesmo que os adere ao referente e que pode fazê-los resistir ao meio digital como uma nova abordagem para a fotografia.

Sabemos que a fotografia experimenta sua ampliação em diferentes campos, mas o apego ao registro da realidade que a encheu de glórias é também um golpe cotidiano em tempos de novas mídias. Rouillé considera necessário investigar como a imagem produz um real. Sabemos que se trata, na verdade, de modelos de realidade, concebidos por meio das decisões técnicas e estéticas que envolvem o “ato fotográfico”, muito mais do que retratar a realidade ou reproduzi-la. Portanto, há também modelos sociais, artísticos, culturais e tecnológicos envolvidos nesse processo.

Para Rouillé, o confronto entre ícone e índice faz parte de um conjunto de oposições binárias: artista versus operador; artes liberais versus artes mecânicas; originalidade e unicidade versus similaridade e multiplicidade. A principal crítica do autor ao modelo do índice reside no fato de que ele reduz a fotografia ao funcionamento elementar de seu dispositivo, frequentemente associado a um simples automatismo. O que implica a análise da autonomia relativa das imagens e de suas formas em relação ao referente.

De qualquer maneira, ainda que centrada nesse padrão, é bastante legítima e muito bem-vinda a difusão de conteúdo gratuito e de qualidade, democratizando o acesso às produções fotográficas, mesmo que democratização de acesso aos bens e produtos culturais e a acessibilidade universal sejam uma questão importante a ser enfrentada por todos os meios, indistintamente. Mas esta característica, por si, representa importante papel na sociedade brasileira que apresenta estatísticas muito positivas de crescimento no uso da Internet.

A chave que aciona esse quadro de força pode estar na interatividade. É que as tecnologias propuseram relações dialógicas profundas entre o dispositivo, o ambiente, o indivíduo. O avanço na distribuição de conteúdo sobre a fotografia na internet pode estar na compreensão da imagem também como uma interface dentro desse jogo de virtualidades e digitalizações. Com isso, a aposta é na abordagem diferenciada para os conteúdos, ampliando os seus sentidos e nossa relação com eles.

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*Este texto foi elaborado tendo como premissa as discussões realizadas no Grupo de Pesquisas da Imagem Contemporânea (GPic), coordenado pelo pesquisador e artista Fernando Fogliano, do qual participo como pesquisadora. Os trabalhos do Grupo têm gerado artigos apresentados no Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação (Intercom), nos últimos anos, e intervenções e projetos artísticos cujo foco são a imagem, a cultura e a interação.

** Denise Camargo é fotógrafa e docente. Doutora em Artes (Unicamp, 2010). Mestre em Ciências da Comunicação (ECA-USP, 1991) onde também é formada em Jornalismo. Pós-graduada pela Faculdade de Ciências da Informação (Universidade de Navarra, 1992). Foi fotojornalista e editora de veículos especializados na difusão cultural da fotografia brasileira. Em 2007 foi contemplada com o Programa Cultura e Pensamento pelo projeto Representação imagética das africanidades no Brasil e, em 2010, pelo projeto Corpo-imagem dos terreiros. Recebeu o Prêmio Expressões Culturais Afro-Brasileiras 2010, para a exposição E o silêncio nagô calou em mim. Pesquisa a imagem e as manifestações culturais. Participa do Grupo de Pesquisas da Imagem Contemporânea (GPic) e do Grupo de Pesquisa Fotografia, do Intercom. Desenvolve ensaios fotográficos, projetos editoriais, curatoriais e culturais.

Contato: oju.cultural@gmail.com

  • http://www.revistafotografia.com.br/revista/foto-grafia-09/

    Cássio Vasconcellos realiza centenas de fotografias aéreas e une as imagens em uma só, criando cenas panorâmicas apresentadas em enormes e impressionantes painéis. Alexandre Severo registra o dia-a-dia de três crianças albinas, filhas de pais negros, que vivem na favela V-9, em Pernambuco, e tem fotografia selecionada pela agência Reuters como uma das Imagens do Ano (Pictures of the Year). A fotógrafa Anna Kahn consegue, com muita sensibilidade, fotografar o ausente, lançando um novo olhar a respeito das vítimas de bala perdida no Rio de Janeiro. Breno Rotatori presenteou sua avó com uma câmera analógica e registrou os atos fotográficos dela com sua câmera digital, criando dípticos que, além de transmitir uma sensação de tridimensionalidade, apresentam imagens que parecem estar em outro espaço-tempo. O foco seletivo de Claudio Edinger traz a Serra Catarinense em belas imagens que mostram os habitantes e as paisagens de uma região que, para o fotógrafo, parece ser de outro país. Pedro Motta fecha a edição com o projeto Reação Natural, revelando a sobrevida da natureza em meio ao caos urbanos, com imagens de plantas que se adaptam ao concreto e de construções que respeitam o espaço da natureza.

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  • http://www.revistafotografia.com.br/revista/foto-grafia-08/

    Rosely Nakagawa, curadora fotográfica atuante no mercado há mais de 30 anos, analisa o trabalho da fotógrafa Elisa Elsie na Leitura de Portfólio. Iatã Cannabrava, fotógrafo, curador e produtor cultural, vislumbra o futuro da produção cultural no Brasil e fala sobre o fazer coletivo, algo que vem se tornando cada vez mais comum. Na coluna Click Literário, de Marcelo Juchem, a discussão gira em torno do livro A Câmera Clara, de Roland Barthes. Em Luz para todos, reportagem da seção Universo Fotográfico, o assunto da vez é a fotografia humanitária, área em que profissionais engajados transformam seu trabalho em ferramentas de transformação social. Ensaios fotográficos, projeto de capa, artigos científicos e indicações na rede completam a edição, que está imperdível.

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  • http://www.revistafotografia.com.br/revista/foto-grafia-07/

    A revista destaca a participação de Luiz Garrido na Leitura de Portfólio, entrevista com Sergio Burgi, coordenador de fotografia do Instituto Moreira Salles, sobre a importância da preservação dos arquivos iconográficos e a matéria sobre Cinematografia com a colaboração de importantes nomes do cinema nacional. A edição conta também com Susan Sontag na coluna Click Literário, indicações na rede, ensaios fotográficos e artigos científicos elaborados por leitores da revista.

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  • http://www.revistafotografia.com.br/revista/foto-grafia-06/

    Opinião com Simonetta Persichetti, Leitura de Portfólio com Adriano Gambarini, Fotopintura Contemporânea, Evgen Bavcar na Coluna Click Literário, Ensaios Fotográficos, Artigos Científicos, Projeto de Capa e Indicações.

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  • http://www.revistafotografia.com.br/revista/foto-grafia-05/

    A revista destaca a participação de dois grandes nomes da fotografia brasileira: o Fotojornalista Evandro Teixeira, analisando o portfólio de uma jovem fotógrafa que atua neste ramo há apenas quatro anos e a Editora da antiga revista Iris Foto, Denise Camargo, opinando sobre a disponibilização gratuita de conteúdos fotográficos na internet. A jornalista Karina Pizzini fala sobre a edição de imagens, um mercado de trabalho amplo, mas carente de profissionais capacitados. A edição conta também com os ensaios fotográficos e artigos científicos elaborados por leitores da revista Foto Grafia.

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  • http://www.revistafotografia.com.br/revista/foto-grafia-04/

    Conheça a mostra, os artistas e as obras brasileiras que foram ao PIP 2010 (Pingyao International Photography Festival), um dos maiores festivais de fotografia do mundo, realizado na cidade de Pingyao, China. A matéria é de autoria de Ângela Magalhães e Nadja Peregrino, Curadoras da mostra “Um Certo Brasil”. Há mais de 30 anos atuando no mercado fotográfico, experiência profissional é o que não falta ao Kazuo Okubo, Fotógrafo que analisou o projeto “Como Você Se Vê?”, de Raphael Delesderrier, artista com 4 anos de carreira. O Professor Marcelo Juchem estréia sua Coluna sobre obras literárias fornecendo diversas dicas para auxiliar os Fotógrafos na hora de escolher o melhor livro para tirar da prateleira.

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  • http://www.revistafotografia.com.br/revista/foto-grafia-03/

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