Via PanAm: projeto sobre a migração contemporânea na América

por Sergio Antonio Ulber em 3 de fevereiro de 2012

Kadir van Lohuizen está viajando pela América a fim de realizar uma pesquisa visual que retrate os aspectos da migração, imigração e da colonização, algo fortemente presente em nosso continente. Conforme consta no site oficial do Via PanAm, enquanto muitas pessoas pensam que a maioria das pessoas daqui migram do sul para o norte, na verdade isto é mais frequente entre países vizinhos ou regiões vizinhas dentro da própria pátria.

A viagem de Lohuizen teve início dia 17 de março de 2011, quando partiu do sul do Chile rumo ao norte do Alaska, EUA. Seu ponto de referência é a rodovia Pan-Americana, que liga a América do Sul a América do Norte, com cerca de 48 mil quilômetros de extensão, onde o fotojornalista passará por 15 países. Para divulgar este projeto, Lohuizen criou um blog que atualiza frequentemente, postando as fotografias e breves texto que relatam suas experiências.

O fotógrafo é holandês, tem 49 anos e recebeu diversos prêmios por seus trabalhos, inclusive o World Press Photo, evento do qual se tornou membro do conselho em 2008. Até o momento, Lohuizen já publicou quatro fotolivros, incluindo o “Diamond Matters, the diamond industry”, um de seus trabalhos mais conhecidos, em que retrata a extração de diamantes na África para o mundo da moda. O fotógrafo costuma cobrir fatos de risco, como o furacão Katrina e o terremoto que abalou o Haiti, acompanhando as vítimas e os efeitos a longo prazo durante muitos anos após os acontecimentos, ao contrário da mídia internacional. Em Via PanAm, voltou sua atenção principalmente à América Latina, onde pretende focar em aspectos atuais e históricos da evolução de todo continente americano.

+ www.viapanam.org

 

Fotografia tirada no primeiro dia da viagem de Lohuizen. Puerto Toro, Chile. “Apenas 10 famílias vivem aqui, a maioria faz parte do exército ou da polícia. Uma vez por mês uma balsa serve a aldeia, trazendo suprimentos e combustível para os geradores (…)”. 

Dia 006, 200 km de viagem. Ushuaia, Argentina. “Cidade dos trabalhadores imigrantes. A população de 50.000 habitantes dobrou nos últimos seis anos. Os habitantes antigos tem sentimentos mistos, os recém-chegados fizeram da cidade um lugar menos seguro, de acordo com a visão de alguns. Segundo outros, fizeram ela enriquecer culturalmente. Em geral, todos concordam que a cidade precisa da força do trabalho (…).”

Dia 018, 2000 km de viagem. Quellon, Chile. “Chiloé é uma ilha maravilhosa e um dos principais destinos turísticos do Chile, com suas típicas casas palafitas. Mas, por trás da bela fachada, tem uma imagem sombria. Até recentemente era um dos principais produtores de salmão do mundo, mas, em 2008, duas crises atingiram a ilha: a primeira foi financeira e a segunda foi um vírus (…)”. 

Dia 079, 8530 km de viagem. Chiquitoy, Peru. “Chiquitoy é minúsculo. Fica no meio do deserto, perto de Trujillo. No entanto, a terra é baixa e a água fica próxima da superfície. Este é o país da cana-de-açúcar, com campos tão extensos quanto você pode ver (…)”. 

Dia 105, 10010 km de viagem. Fronteira entre Colômbia e Equador. “Apena um rio divide os dois países. O calor está aumentando, não tem vento. Eu viajei até aqui para encontrar os refugiados após ter lido uma reportagem que cerca de 1500 colombianos buscam refúgio no Equador a cada mês (…)”. 

Dia 113, 10230 km de viagem. Timbío, Colômbia. “As comunidades de Naza, uma tribo indígena pacífica, viviam nas profundezas da selva de El Naya, na costa da Colômbia, banhada pelo oceano Pacífico. Em 2001, tudo mudou: grupos armados para-militares invadiram as comunidades utilizando armas de fogo, facões e até motosserras. Oficialmente, 27 pessoas foram massacradas, mas, de acordo com a Naza, ao menos cem pessoas morreram e muitos não foram mais encontrados. O grupo armado fazia parte da defesa colombiana e acusavam a Naza de apoiar as Farc, acusação que nunca foi comprovada. (…) Depois de três anos do massacre, o governo doou novas terras para as comunidades. O povoado está sob proteção porque a Naza continua a receber ameaças na tentativa de convencê-los a retirar as acusações contra os para-militares do massacre. Na foto, Paulina Troches (85) e seu marido, que é o Xamã, são os mais antigos sobreviventes, eles tem 10 filhos e cerca de 60 netos e bisnetos. 

Dia 259, 15551 km de viagem. Arriaga, México. “Tempos atrás era possível pegar um trem da plataforma do Panamá até os Estados Unidos, mas, devido à privatização, falta de manutenção e à destruição causada por alguns furacões, o ponto de partida do trem fica atualmente em Arriga, sul do México. Não é um trem de passageiros, mas de carga.  Para os imigrantes (em sua maioria ilegais) da América Central que se deslocam para o norte, o trem é a maneira mais conveniente de viajar, pois, além de gratuito, evita pontos de controle de imigração (…)”. 

Dia 283, 19536 km de viagem. Nogales, EUA. “(…) À noite, retornei para Nogales. Visitei um abrigo onde estão os imigrantes que foram deportados dos EUA naquele dia, local onde passam a noite. (…) No canto estava uma estátua de Jesus, com os corpo cheio de pulseiras. As pulseiras são de identificação que os imigrantes as usavam enquanto estavam nos centros de detenção de migrantes dos EUA”.

Autorretrato feito no dia da partida. Santiago, Chile. “(…) Ontem peguei um voo para Patagônia do Sul para dar início à minha jornada, investigando a migração contemporânea na América.  Será meu último voo pelas próximas 40 semanas…”

www.viapanam.org

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Sergio Antonio Ulber

Integra o conselho editorial da Foto Grafia, é responsável pelo blog e pela redação da revista e sócio da LAPIS Comunicação e Cultura. Formado em Design Gráfico pela Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI), atualmente é aluno do curso de Pós-Graduação em Fotografia na mesma instituição.

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